O que a empresa precisará fazer para continuar relevante?
Nos quatro primeiros artigos desta série, tratamos de questões fundamentais para a continuidade das empresas familiares: os riscos de administrar o futuro com a mentalidade do passado, a importância da sucessão, a profissionalização da gestão e a necessidade de observar o que acontece fora da empresa.
Esses temas conduzem a uma pergunta inevitável: depois de reconhecer as mudanças do mercado, preparar a liderança e organizar a gestão, como a empresa deve transformar essa percepção em ação? A resposta passa pela inovação. Mas é importante compreender que inovação não significa apenas adotar novas tecnologias, implantar inteligência artificial ou criar um aplicativo. Tecnologia pode apoiar a transformação, mas não é a transformação em si.
Inovar é encontrar maneiras melhores de gerar valor para o cliente e resultados sustentáveis para a empresa. Isso pode acontecer por meio de um novo produto, de um serviço mais conveniente, de um processo mais eficiente, de um canal diferente de atendimento, de uma experiência superior ou de um novo modelo de receita.
O problema é que muitas empresas ainda associam inovação a grandes investimentos, projetos complexos e decisões que precisam produzir resultados imediatos. Essa visão acaba paralisando a organização. Em muitos casos, a empresa não precisa começar comprando uma tecnologia cara. Precisa começar fazendo perguntas melhores.
Quais atividades ainda dependem de práticas antigas?
Que processos continuam sendo executados da mesma forma apenas porque “sempre foi assim”?
Quais tarefas consomem tempo da equipe, geram erros ou dificultam a experiência do cliente?
A resposta pode revelar oportunidades importantes.
Um processo manual de pedidos, por exemplo, pode provocar atrasos e retrabalho. Uma política comercial criada há muitos anos pode não atender aos novos hábitos de consumo. Um canal de vendas pode continuar existindo por tradição, mesmo sem gerar resultados. Um serviço pode ser oferecido da mesma maneira para todos os clientes, embora as necessidades sejam diferentes.
Muitas empresas tentam inovar a partir daquilo que sabem fazer, e não a partir dos problemas que precisam resolver. Criam produtos, campanhas ou sistemas sem compreender claramente o que o cliente considera difícil, demorado, caro ou frustrante. Uma empresa relevante para o futuro será aquela capaz de identificar problemas reais e construir soluções mais simples, rápidas e convenientes.
O cliente enfrenta dificuldades para encontrar determinados produtos?
Tem dúvidas durante a compra?
Precisa esperar muito pelo atendimento?
Não consegue trocar uma mercadoria com facilidade?
Deseja receber ofertas mais adequadas ao seu perfil?
Quer comprar em um canal e retirar ou devolver em outro?
Essas perguntas podem indicar caminhos mais importantes do que uma lista de tecnologias disponíveis no mercado. A inovação começa quando a empresa deixa de proteger automaticamente suas práticas antigas e passa a avaliar se elas ainda fazem sentido. O cliente precisa estar no centro dessa transformação. Jim Collins nos ensina que os melhores líderes são curiosos e acredito que precisamos criar um ambiente onde todos sejam verdadeiramente interessados nas coisas novas, enfim uma equipe de gestores curiosos.
Também é necessário compreender que o modelo de negócio pode ser transformado em diferentes dimensões. A empresa pode rever seu portfólio, desenvolver marcas próprias, oferecer serviços complementares, criar programas de assinatura, estabelecer parcerias, ampliar os canais de venda ou desenvolver novas formas de relacionamento.
Pode ainda modificar seu modelo de receita. Em vez de depender exclusivamente da margem sobre a venda de produtos, pode criar receitas com serviços, conveniência, fidelização, publicidade, dados ou soluções personalizadas, sempre respeitando a confiança e a privacidade dos clientes. Isso não significa abandonar aquilo que funciona. Significa avaliar se a empresa continuará competitiva caso dependa apenas das mesmas fontes de receita nos próximos anos.
Outra coisa importante é experimentar antes de investir em grande escala. Em vez de implantar uma mudança em toda a empresa, a organização pode escolher uma loja, uma categoria de produtos, um grupo de clientes ou um canal específico para realizar um teste. O objetivo é aprender rapidamente, medir os resultados e corrigir o que for necessário.
Um pequeno experimento pode testar um novo serviço de entrega, uma forma diferente de exposição dos produtos, uma campanha personalizada, um programa de relacionamento ou um novo processo de atendimento. Se o teste demonstrar valor, a empresa poderá ampliar a iniciativa. Se não funcionar, o prejuízo será limitado e o aprendizado poderá evitar um investimento maior em uma direção equivocada.
Mas nenhuma agenda de inovação avança quando não existe um responsável claro. A inovação não pode depender apenas da inspiração do fundador ou de uma reunião eventual. Alguém precisa acompanhar as tendências, ouvir os clientes, organizar os experimentos, definir indicadores, envolver as áreas e apresentar os aprendizados à liderança.
Esse responsável não vai trabalhar sozinho. Ele deve liderar um grupo formado por pessoas de diferentes áreas, operaçoes, comercial, marketing, tecnologia, logística e atendimento. O mais importante é que a inovação deixe de ser um discurso e passe a fazer parte da gestão e que todas as áreas possam participar. A inovação é um processo permanente e que deve ser incorporado ao dia a dia dos gestores.
Empresas familiares não precisam abandonar sua identidade para inovar. A tradição pode continuar sendo uma força, desde que não seja utilizada como justificativa para impedir mudanças necessárias. O verdadeiro desafio é combinar a experiência acumulada pela família com a disposição para testar novas possibilidades. É preservar os valores que dão sentido ao negócio e transformar as práticas que já não atendem ao mercado.
A inovação não é um projeto com data para terminar. É uma capacidade que a empresa precisa desenvolver continuamente. A pergunta não é apenas se a empresa possui tecnologia suficiente. É se ela está aprendendo com rapidez suficiente para continuar sendo escolhida pelos clientes.
Os próximos passos
- Identificar atividades, processos e decisões que ainda dependem de práticas antigas.
- Escolher um problema relevante dos clientes para solucionar.
- Criar um pequeno experimento, com prazo, responsável e indicadores definidos.
- Avaliar os resultados antes de realizar grandes investimentos.
- Definir quem será responsável por conduzir a agenda de inovação.
- Reservar espaço nas reuniões estratégicas para discutir aprendizados, oportunidades e próximos testes.
A empresa que inova não abandona sua história. Ela transforma sua experiência em capacidade de construir o futuro.
ALTEVIR PIEROZAN MAGALHÃES
+5511 98567-0273 / +5565 99981-1855
3A – GESTÃO COMERCIAL







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